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O momento pede calma
Nos últimos dias, um bar de João Pessoa frequentado pelo público LGBT virou alvo de boatos anônimos e de um chamado ao boicote. No segundo turno, quem faz campanha precisa ter tato: brigar entre nós só divide quem precisa somar.
O medo
O medo tem motivo
O Brasil registrou 257 mortes violentas de pessoas LGBT+ em 2025, uma a cada 34 horas, segundo o Grupo Gay da Bahia. O Nordeste é a região mais letal, com 66 casos. E o número é subnotificado, porque o levantamento se baseia em notícias[1].
Por isso o medo do bolsonarismo é real, e não é exagero. Pedir calma não é pedir silêncio, nem pedir às vítimas que falem mais baixo. É pedir que, antes de agir, a gente confira os fatos.
O causo
Um bar na mira
Nos últimos dias, mensagens anônimas passaram a acusar os donos de um bar de João Pessoa de serem bolsonaristas e a pedir boicote. Segundo quem frequenta, é um espaço quase sempre seguro, com um papel importante na cena alternativa e cultural da cidade.
As acusações vieram sem assinatura e sem provas. Boicotar é um direito de quem consome, mas a decisão deve se apoiar em fatos, não em boatos.
Os argumentos
Bíblia não é voto, nem preconceito
Alguém viu uma Bíblia no caixa e decidiu nunca mais voltar. Mas uma Bíblia não diz em quem a pessoa vota, e muito menos que ela odeia alguém. Presumir preconceito pela fé é fazer com o outro o que a gente não aceita que façam com a gente: julgar pela aparência.
Tem evangélico que vota em Lula, tem evangélico LGBT, tem dono religioso que recebe todo mundo bem. Chamar alguém de “crente” como xingamento afasta justamente quem a gente precisa ter por perto no dia 25.
“Conheço o dono” também não é prova: é ouvir dizer. Uma acusação sem nome e sem fato não ganha peso porque se espalhou rápido.
Pink money
Um conceito sério, esticado demais
Pink money é o poder financeiro do público LGBTQIAP+. A crítica mira as marcas que só falam com esse público em datas específicas, o que “acaba soando como oportunismo”[2]. Ou seja, a bandeira em junho sem contratar nem investir na comunidade[3].
Um bar que recebe, acolhe e dá palco a pessoas LGBT toda noite não é isso. Esticar o conceito tira a força dele, como quando qualquer pessoa vira “fascista”: a palavra perde o peso para quando for preciso, e quem podia ser aliado vai para a direita.
O curioso é que, no meio da polêmica, outro bar da cidade postou: “Um bar LGBTQIAPN+ apoia a sua comunidade! É 13 pela nossa existência.” Um concorrente que conhece o público e o clima do momento e se posiciona para conquistá-lo. Isso, sim, pode ser lido como pink money: a bandeira levantada na hora em que ela rende clientes.
Transparência
A cobrança pela vitrine
O filósofo Byung-Chul Han chama o nosso tempo de sociedade da transparência: tudo precisa ser exposto, e a exposição máxima vira uma espécie de pornografia, sem mistério e sem distância[4]. Quem não se mostra passa a ser suspeito.
É essa lógica que cobra de cada pessoa, e de cada bar, a frase explícita: “Eu apoio Lula” ou “Eu sou contra Flávio”. O silêncio vira prova de culpa. É um sintoma do esgotamento das redes e do contato social em excesso, e não um termômetro do voto de ninguém.
Classe
Quem perde com a briga
Se o bar fecha, perde o público LGBT, que fica sem um espaço seguro, e perdem os trabalhadores de lá. Em 1870, Marx escreveu que o antagonismo entre operários ingleses e irlandeses era “artificialmente mantido e intensificado” e era “o segredo da impotência” da classe operária inglesa[5].
A classe trabalhadora é uma só, e conversar funciona melhor que expulsar. Em Miami, conversas de 10 a 20 minutos, sem julgamento, reduziram o preconceito contra pessoas trans, e o efeito ainda estava lá três meses depois[6]. O momento pede calma. O voto é no dia 25.
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Referências06 fontes
- 01Grupo Gay da Bahia · Observatório de mortes violentas de LGBT+ no Brasil, 2025257 mortes violentas em 2025, uma a cada 34 horas; 66 no Nordeste; levantamento baseado em notícias.(abre em nova aba)
- 02Meio & Mensagem · Pink Money: a importância de reconhecer o potencial da comunidade LGBT+Pink money como poder financeiro do público LGBTQIAP+; falar só em datas específicas soa como oportunismo.(abre em nova aba)
- 03Diário do Nordeste · Por que o pink money deixa a maioria dos LGBT+ de fora?A crítica a empresas que usam a bandeira em junho sem contratar nem investir na comunidade.(abre em nova aba)
- 04Gazeta do Povo · Sociedade da Transparência: como a excessiva exposição voluntária representa uma nova forma de prisãoResenha do livro de Byung-Chul Han: a transparência total transforma o erotismo em pornografia e a exposição em mercadoria.(abre em nova aba)
- 05Karl Marx · Carta a Sigfrid Meyer e August VogtO antagonismo entre operários ingleses e irlandeses, mantido pelas classes dominantes.(abre em nova aba)
- 06WGBH / NPR · Study Finds Deep Conversations Can Reduce Transgender PrejudiceEstudo publicado na Science: conversas de 10 a 20 minutos em Miami, efeito medido três meses depois.(abre em nova aba)