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Cobrar artista não vira voto. Só queima ponte.
Nesta semana, um influenciador e internautas passaram a cobrar que João Gomes e outros artistas do Nordeste declarassem voto[1]. Para 77,5% dos eleitores, o apoio de um influenciador a um candidato não faria diferença no voto[2].
- dizem que o apoio de um influenciador não mudaria o voto
- 77,5%
- ficariam mais propensos e menos propensos a votar no apoiado: saldo zero
- 3% / 3%
- ausentes no 1º turno para cada voto de diferença entre Flávio e Lula
- 15
O caso
A semana de João Gomes
O influenciador Breno Carva publicou um vídeo pedindo que João Gomes, Xand Avião, Taty Girl, Solange Almeida, Mari Fernandes e Nattan se posicionassem. Depois, internautas marcaram o cantor: “Cadê seu posicionamento”, “Abre a boca”, “O rei do piseiro está mudo”. Ele não declarou apoio a nenhum candidato[1]. No X, uma montagem listou João Gomes, Selton Mello, Whindersson Nunes e Cazé como “desaparecidos” da eleição[5].
Mestrinho, parceiro de João no projeto Dominguinho, falou da “tristeza que é ver a forma com que vocês cobram posicionamento”. E disse de si mesmo: “jamais votaria em nada relacionado à família Bolsonaro”[6]. Ou seja: dá para recusar o bolsonarismo e recusar a cobrança ao mesmo tempo.
Segundo a esposa, Ary Mirelle, da última vez que João se posicionou, foi “extremamente cancelado”; ele tem depressão, e a família recebe ameaças aos filhos “todos os dias”[7]. Em 2022, ele puxou um coro contra Jair Bolsonaro no Rock in Rio e pediu desculpas dois dias depois[8].
O que pesa
Quem muda o voto
Na AtlasIntel/Bloomberg, 77,5% dizem que o apoio de um influenciador não faria diferença; 3% ficariam mais propensos a votar no apoiado, e outros 3%, menos[2]. E 72,3% dizem nunca ter mudado de opinião política por causa de influenciadores[9].
No Datafolha, 43% dizem ser influenciados por amigos próximos, 41% pelo companheiro ou companheira e 39% pelas redes sociais[10]. Quem está perto de você pesa, no mínimo, tanto quanto quem você segue na internet.
Há uma exceção séria: nos EUA, estima-se que o apoio espontâneo de Oprah Winfrey a Obama nas primárias de 2008 rendeu cerca de 1 milhão de votos[11]. É o caso mais forte já medido, e veio da maior estrela do país, por vontade própria, sem cobrança.
Cobrança
O preço da pressão
Boicote costuma ter pouco efeito nas vendas, segundo o pesquisador Brayden King, da Northwestern; o que decide seu efeito é a atenção da imprensa[12]. A cobrança pública também vive de atenção, mas a manchete fala da briga, não do voto.
O que a cobrança ganha é incerto. O que ela custa é visível: um artista acuado, fãs divididos, uma ponte queimada com quem talvez nem estivesse do outro lado.
Artista e empresa não são militantes. Cada um tem seu público, seus medos e seu tempo. Exigir uma declaração pública transforma o silêncio em prova de culpa, como descreve o filósofo Byung-Chul Han[13].
O outro lado
A direita ataca quem diverge
Em dezembro de 2025, depois de um anúncio das Havaianas com Fernanda Torres, políticos do PL pediram boicote. A deputada Bia Kicis: “Se as Havaianas não nos querem, nós também não queremos as Havaianas”. O deputado Capitão Alberto Neto: “Não compramos de quem nos ataca”[14].
A direita mira quem se coloca contra ela. Não encontramos caso dela cobrando que seus artistas calados declarem voto em Flávio. Quem cobra os próprios aliados em potencial faz sozinho o trabalho de afastá-los.
O que fazer
Converse com quem você conhece
No primeiro turno, 33,5 milhões de eleitores não votaram[3], e Lula ficou 2,2 milhões de votos atrás[4]. São mais de 15 ausentes para cada voto de diferença. Esse voto está na sua rua, não no perfil de um cantor.
Um estudo publicado na Science mostrou que conversas de 10 a 20 minutos, sem julgamento, reduziram o preconceito contra pessoas trans, e o efeito ainda estava lá três meses depois[15]. Veja como ajudar alguém a votar na página Abstenção e como conversar sem brigar na página Calma.
Até o dia 25, o tempo é curto. Gaste-o com quem pode ir às urnas ao seu lado.
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Uma imagem com o fato principal, no formato dos stories, e o link desta página.
Referências15 fontes
- 01Difusão Brasil · João Gomes é pressionado nas redes a declarar voto no segundo turnoO vídeo do influenciador Breno Carva, os artistas citados, os comentários marcando o cantor e que ele não declarou apoio a candidato.(abre em nova aba)
- 02SBT News · Atlas: 77,5% dizem que apoio de influencers não muda votoAtlasIntel/Bloomberg, 5.021 entrevistas, 22 a 27/7/2026: 77,5% dizem que o apoio de um influenciador não faria diferença; 3% mais propensos e 3% menos.(abre em nova aba)
- 03Congresso em Foco · Saldo das urnas: Abstenções, nulos e brancos na eleição de 20261º turno de 2026: 33,5 milhões não votaram (21,08% do eleitorado).(abre em nova aba)
- 04Poder360 · Bolsonarismo vira a diferença sobre Lula em relação a 20221º turno, 100% apurado: Flávio 47,03% (56.104.503 votos), Lula 45,16% (53.879.538); diferença de 2.224.965 votos.(abre em nova aba)
- 05Poder360 · Artistas são cobrados nas redes por silêncio no 2º turnoA montagem no X com João Gomes, Selton Mello, Whindersson Nunes e Cazé como “desaparecidos”; parte da cobrança vem de perfis alinhados à esquerda.(abre em nova aba)
- 06Metrópoles · Amigo de João Gomes, Mestrinho critica cobrança por posicionamento políticoAs falas de Mestrinho sobre a cobrança e sobre jamais votar em nada relacionado à família Bolsonaro.(abre em nova aba)
- 07Terra / Contigo · Lula ou Flávio Bolsonaro? Esposa de João Gomes faz revelação sobre o cantor após cobrança: ‘Coisas horríveis’O relato de Ary Mirelle: o cancelamento da última vez, a depressão do cantor e as ameaças aos filhos, sem dizer de quem partem.(abre em nova aba)
- 08Poder360 · João Gomes pede desculpas após puxar grito contra BolsonaroO coro no Rock in Rio em 4/9/2022 e o pedido de desculpas em 6/9/2022.(abre em nova aba)
- 09Poder360 · Influenciadores terão peso no voto para 88%, diz AtlasIntelMesma pesquisa (registro TSE BR-08602/2026): 72,3% dizem nunca ter mudado de opinião política por causa de influenciadores.(abre em nova aba)
- 10Metrópoles · Datafolha: 47% veem menos interesse nas eleições deste ano que em 2022Datafolha, 2.506 entrevistas, 29/9 a 1/10/2026, registro TSE BR-08039/2026: amigos próximos 43%, companheiro(a) 41%, redes sociais 39%.(abre em nova aba)
- 11Journal of Law, Economics, & Organization · Can Celebrity Endorsements Affect Political Outcomes? Evidence from the 2008 US Democratic Presidential PrimaryGarthwaite e Moore: o apoio de Oprah Winfrey rendeu cerca de 1 milhão de votos a Obama nas primárias de 2008.(abre em nova aba)
- 12Northwestern University, Institute for Policy Research · Do Boycotts Work?Brayden King: o boicote típico tem pouco impacto nas vendas; o que mais prevê seu efeito é a atenção da mídia.(abre em nova aba)
- 13Gazeta do Povo · Sociedade da Transparência: como a excessiva exposição voluntária representa uma nova forma de prisãoResenha do livro de Byung-Chul Han: na sociedade da transparência, quem não se expõe vira suspeito.(abre em nova aba)
- 14CNN Brasil · Entenda por que políticos de direita querem boicotar marca de sandáliasO anúncio com Fernanda Torres e as falas de Bia Kicis (PL-DF) e Capitão Alberto Neto (PL-AM) pedindo boicote.(abre em nova aba)
- 15WGBH / NPR · Study Finds Deep Conversations Can Reduce Transgender PrejudiceEstudo publicado na Science: conversas de 10 a 20 minutos em Miami, efeito medido três meses depois.(abre em nova aba)